Trabalhar com os pais não é fácil mas é
extremamente útil. A experiência e a investigação têm demonstrado que a
participação dos pais nas actividades educativas dos filhos, embora difícil de
operacionalizar e capaz de gerar grandes resistências no interior das
instituições, só tem benefícios.
Esses
benefícios observam-se num amplo leque de situações e competências. Relativamente
às crianças e adolescentes,
podemos destacar a melhoria dos níveis de aprendizagem (maior atenção e
entusiasmo nas actividades), uma maior capacidade para utilizar na vida
corrente esses conhecimentos, um desenvolvimento mais completo e harmonioso e
uma representação mais positiva da aprendizagem e das instituições educativas.
Também tendem a permanecer ligados à paróquia por mais tempo, indo mais longe e
em menos tempo, com a consequente redução do abandono.
Do
ponto de vista dos catequistas,
apesar da já citada dificuldade em iniciar um programa de incentivo à
participação dos pais, também beneficiam pelo facto dos catequizandos
melhorarem a sua participação e postura, mas igualmente porque os pais podem
colaborar eficientemente em muitas actividades que resultam pesadas para os primeiros,
podendo ajudá-los a concentrar-se melhor na preparação e implementação das
tarefas educativas próprias do seu papel. Neste sentido, os pais deixam de ser
vistos como clientes distantes (por vezes ameaçadores ou conflituosos), e
tornam-se em primeiro lugar, colaboradores úteis e mais tardes
verdadeiros parceiros educativos.
Os
pais beneficiam através dos
resultados obtidos com os filhos, mas também de forma directa, no sentido em
que se vêm valorizados nas suas competências e saberes (quaisquer que sejam
estes, formais ou informais), e todas as pessoas apreciam ser valorizadas. Por
outro lado, as Paróquias são pólos formativos relevantes, embora frequentemente
desaproveitados. Queremos com isto dizer que são instituições
frequentadas por pessoas com formação (intelectual, humana, religiosa) e
experiência educativa (sacerdotes, professores, médicos, psicólogos,
enfermeiros e outros profissionais com talentos nas áreas da educação e
formação, assim como muitos casais estruturados e experientes, independentemente
do tipo da sua actividade profissional, alguns dos quais inseridos em
movimentos de Igreja direccionados para a família e o casal). Aproveitando
estes recursos humanos, e ainda os espaços e materiais que já existem nas
paróquias, podemos trabalhar para favorecer e facilitar a participação dos pais
na catequese dos filhos.
Assim,
é possível conseguir para estes uma oportunidade de fazer um percurso
catequético de adultos (catequese de adultos, catequese familiar) pois
talvez se aproximem mais para receber formação uma vez que já a procuram no seu
papel de pais. Também podemos dar-lhes formação de apoio à função parental,
facilitar-lhes o contacto estruturado e positivo com outros pais para poderem
trocar experiências e até desenvolver um círculo de ajudas, e ainda favorecer a
sua auto-estima e a imagem de si enquanto pessoas, sublinhando as suas
capacidades e competência para ajudar a sua família, outras famílias e a
paróquia, o que é importante para melhorar a sua capacidade de entender e educar
os filhos. A melhor ajuda que podemos dar aos pais é a de os fazer sentir-se
capaz de educar bem os filhos e incentivá-los a desenvolver um projecto
educativo próprio.
NÍVEIS
DE PARTICIPAÇÃO DOS PAIS
Antes
de uma paróquia se decidir a tomar medidas para promover a participação dos
pais, deve começar por analisar qual é a participação actual. Uma participação
inexistente, escassa ou ineficiente é já uma forma de participação. Um
projecto ou programa que vise promover novas formas de relação não vai ser
construído sobre o nada, mas sobre a tradição e o hábito (pré-)existente. Sem
os conhecer e integrar no novo projecto, corre-se o risco de não atingir os
objectivos, quer por não se considerarem os hábitos e resistências anteriores,
quer por se tentar uma realização que não corresponde nem às ideias nem às
necessidades dos supostos beneficiários.
O
segundo passo consiste em decidir que tipo e nível de participação vamos
implementar, definindo objectivos a curto, médio e longo prazo, ou seja, para
este ano, para os próximos dois, para daqui a três anos.
Embora
os modelos de análise de participação dos pais variem, podemos sintetizar os
diversos níveis em cinco escalões.
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Nível
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Participação
|
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1º
Pais Clientes
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Educação
parental (reuniões, grupos de reflexão)
Ajudar
os filhos em casa
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2º
Pais Agentes
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Comunicar
com os Pais, frequentemente, em ambos os sentidos
Clima
amistoso e aberto
Apoiar
as actividades da catequese
|
|
3º
Pais Parceiros
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Defender
pontos de vista, dar sugestões, ser consultado
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4º
Pais Colaboradores
|
Trabalhar
em conjunto: os pais são colaboradores activos e encorajados a participar
|
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5º
Educação Partilhada
|
Participar
nas decisões: educação partilhada, colaboração directa de todos, reflexão e
planificação conjunta
|
“PAIS
CLIENTES” - O
primeiro é o mais elementar, uma vez que os pais são vistos como “clientes” (alguém que vai buscar alguma coisa à catequese:
informação, formação), embora apesar de tudo se observem diferenças importantes
na forma como esses clientes são tratados. Frequentemente os pais acham que as
reuniões para que foram convocados não têm interesse, são mal organizadas e que
os tratam de modo infantilizador (os promotores são os que sabem, os pais os
que ignoram), os horários não são compatíveis com a sua vida profissional e
familiar, e não têm onde deixar os filhos.
Os
catequistas acham que os pais não aderem, que vão às reuniões em número
reduzido, normalmente sempre os mesmos e nunca os que “precisavam”
(leia-se, aqueles cujos filhos “dão problemas”). Deste modo, a tendência revela
um número escasso de ocasiões para encontro e diálogo, um grupo de promotores
desmotivados e frequentemente pouco cuidadosos. Os “clientes” mostram-se cada
vez menos assíduos, porque o produto não é atractivo nem adequado.
Aos
“clientes” também é frequente solicitar-lhes o acompanhamento dos filhos em
casa e a falta deste acompanhamento constitui uma falha habitualmente apontada
quando as aprendizagens das crianças e adolescentes não são positivas ou o seu
comportamento se revela difícil, e infelizmente amiúde a única
diagnosticada na globalidade do processo educativo. Como os pais não dão melhor
ou maior acompanhamento aos filhos essencialmente por não saberem como ou não
terem condições materiais ou psicológicas para o fazer, esse diagnóstico é
sentido como uma acusação culpabilizadora, o que dificilmente incentiva uma
mudança de atitudes.
Assim,
mesmo relativamente ao nível mais elementar da participação dos pais, muito
trabalho há a fazer, e de alguns aspectos importantes deste esforço nos
ocuparemos mais adiante.
“PAIS
AGENTES” - O segundo nível envolve mais
os pais e considera-os mais plenamente como os agentesprincipais
da educação dos filhos. A instituição quer beneficiar de um clima de
proximidade, amistoso e aberto, em que as pessoas se conhecem bem e confiam
umas nas outras. Este clima começa na organização dos espaço, disponibilizando
salas para os pais esperarem pelos filhos, se encontrarem uns com os outros em
condições de poder conversar e descansar dos seus múltiplos afazeres, e nos
quais circulam os responsáveis da catequese, dispostos a estabelecer relações
fortes e positivas, a aconselhar e a pedir ajuda. Tais espaços são também a
sede de um esforço intenso de comunicação, usando cartazes, linhas de telefone
(no dia tal, às tantas horas, é possível falar ao telefone com os responsáveis
ou os catequistas; os catequistas telefonam periodicamente para conversar com
os pais) e o envio de mensagens escritas, procurando que os pais estejam bem
informados das actividades dos filhos e da sua fundamentação (explicar legitima
as nossas opções).
Nalgumas
paróquias, o esforço de estabelecer uma relação duradoura e profunda tem levado
catequistas e sacerdote a fazer “visitas domiciliárias” às famílias que “nunca
aparecem”, um trabalho particularmente difícil nas zonas mais degradadas das
grandes cidades ou acidentado nas zonas rurais mais longínquas. Não é um
trabalho que deva ser feito como uma iniciativa isolada de uma pessoa, nem
apenas uma vez, pois há que ter em conta os problemas concretos a enfrentar,
não poucas vezes de segurança, mas também porque não é legítimo criar-se
expectativas nas pessoas que depois não são respeitadas. Por melhores que sejam
as intenções, não se trata de ir à aventura. Mas é sempre possível reflectir
sobre o que queremos oferecer às famílias e aos nossos catequizandos, estudar
conscientemente as possibilidades materiais e humanas de ir mais longe,
analisar as condições de que dispomos, assim como as ajudas a considerar de
outras estruturas paroquiais e as possibilidades de uma trabalho sério feito em
conjunto.
Por
fim, estes pais, agentes educativos, podem ser solicitados e orientados para
apoiar as actividades da catequese. É o momento de lhes propor participar na
catequese familiar e/ou de adultos, tornar-se orientadores nas reuniões e
cursos de pais, colaborar noutras instâncias da paróquia em que possam
simultaneamente servir e aprender.
“PAIS
PARCEIROS” - No terceiro nível, os pais
são vistos como parceiros, pares e companheiros dos catequistas e
professores, que os entendem e consideram tão aptos para as tarefas educativas
específicas e para as comuns, tal como a si próprios. A partir deste nível, as
crianças e adolescentes têm à sua disposição equipas concertadas de educadores,
embora actuando essencialmente em espaços e tempos diversos. As diferenças de
estatuto esbateram-se, partilham-se saberes e competências. Os pais são
consultados, dão sugestões que são tidas em conta, têm oportunidade e público
para defender os seus pontos de vista e são chamados para avaliar em conjunto.
Também lhes é pedido que partilhem da sua experiência profissional, familiar e
religiosa como “visitantes dos grupos”.
“PAIS
COLABORADORES” - O quarto nível é o dos pais colaboradores,
encorajados activamente pelos responsáveis a trabalhar em conjunto e dividir
tarefas com os catequistas. Estão presentes nos períodos em que há catequese
para acompanhar as crianças que vão chegando, para receber e informar outros
pais, para fazer a ponte com os outros serviços da paróquia. Os outros
serviços podem e devem ser considerados recursos adicionais para a
catequese uma vez que são espaços e actividades em que os jovens catequizandos
vão aprendendo a viver a sua experiência de fé. Os pais colaboradores também
auxiliam na produção de eventos e de materiais, tomando as decisões em conjunto
com os catequistas, acompanhando a realização de actividades (festas, passeios,
visitas, etc...).
Um
aspecto importante da participação activa dos pais colaboradores consiste em
ter presente na catequese (planificação, implementação e avaliação) a voz dos
pais, como veículo dos seus problemas, interesses, necessidades e testemunho.
Estes ajudam a catequese a direccionar-se para os problemas reais das pessoas,
às quais o testemunho cristão deve dar resposta. Também são agentes de
evangelização uma vez que a sua participação na catequese, inicialmente a dos
filhos, lhes fornece a formação e o apoio moral e humano necessários para viver
cristãmente a sua vida, nos diversos locais que as suas responsabilidades
proporcionam.
“EDUCAÇÃO
PARTILHADA” - No quinto nível deixamos de
ter “pais” e “catequistas” para desenvolver um sistema de educação partilhada. Os pais participam nas decisões (e tão
directamente quanto possível), têm todos uma colaboração directa que inclui a
planificação e decisão. A catequese não é oferecida aos pais, é desenvolvida
por estes, vivida por todos. Os pais são responsáveis pela catequese, pelos
serviços de apoio, são catequistas e produtores de materiais. Os pais são
também catequizandos e animadores de grupos diversos de apoio, integrados nos
serviços paroquiais.
REALIZAR ENTREVISTAS E/OU VISITAS E ORGANIZAR
REUNIÕES DE PAIS
ENTREVISTAS
E/OU VISITAS
Embora
seja uma tarefa morosa e delicada, é oportuno marcar uma entrevista
e/ou visita com os pais dos catequizandos, mesmo dos
adolescentes, para as primeiras semanas de trabalho. Estas entrevistas e/ou
visitas, que na catequese de adolescentes podem contar com a participação
dos próprios (caso os pais apoiem a sua catequese, o que nem sempre acontece),
destinam-se a estabelecer uma relação directa e positiva entre catequistas e
pais
Há
diversos modos de marcar entrevistas e/ou visitas com os pais, mas, mais
importante que o meio a usar, é ter em consideração que: se marca com
antecedência e no horário combinado previamente; da marcação deve constar o
motivo da entrevista e/ou visita. Mesmo que o motivo seja um problema de
comportamento, este não deve ser mencionado: usa-se um pretexto simpático mas
mais vago, como “analisar a situação/progressos/interesse do seu filho/educando”,
“conversar sobre”.
A
entrevista deve realizar-se pontualmente, num lugar adequado, agradável e
recolhido, não sujeito a interrupções. Nunca deve ter lugar num corredor ou no
meio da rua. Convém começar por apresentar os aspectos positivos e deixar para
o fim, mas sem pressas, os mais difíceis de abordar, procurando sempre não
acusar os catequizandos nem as famílias, mas antes obter a sua colaboração e
boa vontade. Um bom (catequista) entrevistador sabe ouvir, toma notas da
entrevista, não impõe uma teoria ou uma ideia, mas trabalha com a maior
disponibilidade para resolver as situações e corresponder às necessidades do
entrevistado e daquele que motivou a entrevista.
REUNIÕES
DE PAIS
As reuniões
de pais, que podem ter um carácter informativo
e/ou formativo, também devem ser marcadas para horários acessíveis ao seu
público e com a devida antecedência. O número e circunstância dos convidados
determinarão a forma de comunicar, mas o conteúdo da comunicação deve ser
claro, elegante e atraente, cuidando-se igualmente da apresentação: o objectivo
é conseguir uma boa participação. A quantidade e qualidade da participação dos
pais varia com a organização geral da reunião (horários, acessibilidades, local
adequado e confortável, espaço para conviver), com o interesse dos temas e a
qualidade dos animadores.
A
principal forma de atrair os pais às reuniões é proporcionar-lhes uma
experiência gratificante e nunca desistir só porque as primeiras tentativas
tiveram pouca adesão. A melhor publicidade destes eventos é a directa,
solicitando-se por isso aos pais presentes que avaliem a reunião e que, de
futuro, tragam outros pais com eles.
Algumas
reuniões poderão ser obrigatórias, como seja um encontro de informação ou
sensibilização que anteceda as inscrições ou prévio a uma celebração
determinada. Estas reuniões, embora preenchidas com muitas informações
importantes, devem proporcionar outros elementos: conhecimento dos catequistas
e equipa responsável (com indicações precisas sobre como obter futuros
contactos), tema formativo, genérico, relevante e interessante (os temas
relativos ao desenvolvimento psicológico e à identidade e missão da catequese)
e um período de convívio entre todos (pode ser um intervalo), em que se oferece
um café ou um pequeno lanche bem apresentado, que ajuda a descontrair e a criar
laços.
Um
espaço de partilha de opiniões deve ser orientado por um catequista experiente
e bom comunicador, capaz de lidar com os discursos despropositados e as
críticas mais negativas. Finalmente, como se estará numa paróquia ou reunidos
em seu nome, a reunião deve ter um breve momento de oração, que pode ser
animado pelos catequizandos mais velhos, sem descurar a beleza e emoção que
pode proporcionar (usando música, projecção de imagens ou outros meios de
comunicação).
De
um modo geral, os pais interessam-se pelas actividades desenvolvidas pelos
filhos e por isso um momento agradável das reuniões pode mostrar os filhos em
acção: um pequeno registo vídeo, fotografias projectadas, slides com uma
exposição de trabalhos, cumprem com o objectivo de ajudar os pais a entender a
catequese dos filhos, podendo ser explorados como meio de lhes sugerir
actividades a realizar em casa. As imagens devem ter boa qualidade, mostrar um
conjunto variado de materiais e não deixar nenhuma criança ou adolescente de
fora. Mais tarde, podem ser usadas para produzir postais ou calendários que
sejam postos à venda para fins benéficos ou enriquecer uma página de internet.
CONCLUSÃO
As
paróquias e os serviços de catequese que desejem melhorar e aprofundar a
participação dos pais, necessitam de sacerdotes e responsáveis que acreditem na
possibilidade de estabelecer uma relação de parceria com os pais e que estão
motivados para desenvolver uma pastoral de apoio total às famílias necessitam
da inspiração de uma visão pastoral ampla, ter forte capacidade de liderança e
serem capazes de trabalhar em equipa. Devem estar motivados para partilhar esta
visão com todos os catequistas e com os demais responsáveis paroquiais, gerando
nestes um elevado profissionalismo no atendimento às famílias, a promoção de um
forte sentimento de satisfação nos pais e catequistas e proporcionando de forma
contínua o investimento neste projecto.
Ajudar
as famílias a serem melhores famílias e a educar os filhos de forma mais
pessoal e adequada requer um poderoso investimento em meios humanos e
materiais, o que também implica recolher e disponibilizar verbas a isso
destinadas. A complexidade da tarefa foge à introdução de grandes e pesados
projectos ou à planificação de verdadeiras “reformas”. De um modo geral, os
problemas complexos e difíceis, mas prioritários como estes, beneficiam de uma
rede de apoios mais simples, uma diversidade de oportunidades criadas que se
estendem no tempo, se adaptam criativa e economicamente às circunstâncias
e que persistem com grande paciência e um sentimento profundo de esperança no
futuro e no efeito proporcionado pela soma de muitos pequenos bons resultados.
Finalmente,
devem ser dadas responsabilidades aos catequistas, profissionais e pais que
mostrarem ter vontade de trabalhar em benefício da ligação entre a catequese e
a família, e entre a catequese e as pastorais sectoriais, e que tenham
demonstrado talento para tal tarefa, procurando estabelecer uma relação com
todas as minorias presentes na comunidade paroquial.
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